
Ontem estava eu na aula de Evolução da Dança, quando, através da janela, a chuva bateu cinzenta e molhada e me sorriu, misteriosa e encantadora, apesar de toda sua frieza...
Na aula, a professora mostrava um vídeo de balé clássico sobre a belíssima história de Gisele, moça que morreu de tanto dançar ao descobrir que seu amor, Albretch, mentira para ela. Por causa de seu amor à dança e sua não concretização do casamento, se tornou uma Willi e teve como propósito atrair seu grande amor para a clareira das Willis, para ali cair morto como tantos outros homens de tanto dançar. Porém ,diferentemente das outras, ela o salvou, e como último pedido lhe disse para dar o amor a sua prometida Berthilde,(também nobre como ele), ao que ele prometeu lhe atender. Sobre as relvas e raios de Sol Gisele sumiu...
Enfim, de onde eu estava também pude divisar, através das árvores molhadas, o estranho e lúgubre lugar onde os artistas plásticos do Cac criavam suas obras de arte. Curiosa, resolvi sair de minha sala um instante e ir lá...
E qual não foi minha surpresa ao notar tantas e tantas belíssimas e bizarras esculturas? Desde corpos pela metade até estranhas mácaras ou formas disformes... e pensei comigo mesma como deve ser legal poder criar com suas próprias mãos o que está na mente... por mais louca e estranha que esta seja!
Foi então aí que ouvi uma voz:
-Psiu!
-Hãn? Quem chama?
-Ei você! De calça hippie colorida! - olhei para todos os lados mas não vi ninguém.
-EIIII!!!!!- levei um susto ao notar que uma cabeça de barro ainda pré-esculpida me chamava, com uma estranha boca em formato de círculo.
- Oi, cabeça de barro bizarra! Você me assustou de verdade, hein!- falei, sem muita delicadeza.
Ela porém, ao invés de esboçar um pouco de compreensão, mal me olhou, com cara de quem estava acima de mim, o que ela não estava, já que sua mesa se encontrava ainda alguns bocados de centímetros abaixo de mim.
- Ai ai... esses humanos... sempre se acham os donos da verdadeira inteligência e racionalidade do mundo...- bocejou, ainda com cara de indiferente.
-O que é que você quer falar comigo, hein? Não estou muito afim de ficar levando desaforo de uma cabeça de barro pré- esculpida não sabe! - é, admito que não estava nos meus melhores dias... Olhando para trás, poderia até ter sido mais paciente...
-Ah... não quero falar de nada muito específico não... é so que...
- Só que..?
-Eu estou me sentindo muito sozinha por aqui, sabe? Essas estátuas há minha volta não são muito de conversa não e isso me deixa louca!!!
- Também né...com essa simpatia toda... dá para entender...- nossa, como eu estava chata!
- Eu não sou sempre assim não, tá? Na verdade...isso é só minha máscara exterior...
-Ah! Sério?? Por um segundo eu achava que você era o interior de alguém mesmo...
-Está vendo! Está vendo por que não gosto de seres como você... só sabem dar patadas!- e aí a bizarrinha cabeça começou a chorar e mais parecia estar chovendo ali dentro de tantas lágrimas que foram borrando seu nariz, boca, olhos...
-Pare, pare... não chore... Eu vou ser legal sim com você tá?
-Agora é tarde... estou virando barro derretido novamente...
-Não,não! Nunca é tarde!
-Para algumas coisas sim...- e antes que eu pudesse dizer mais algo que a consolasse,
se derreteu toda e virou um monte de terra lodosa.
Me senti péssima, tanto com o jeito que a tratei como com o jeito com que o dono dela iria se sentir...
-Ei!
Virei.
- Foi você quem fez o favor de destruir essa cabeça de barro?!- engoli seco, pois deveria ser a pessoa dona e criadora da cabeça. Mas resolvi enfrentar e dizer a verdade, assumir minha culpa... ela merecia saber.
- Na verdade foi... não por querer mas...- a menina me abraçou, sorrindo e cortando minhas palavras.
-Ah, obrigada! Foi a minha pior criação! Já estava pensando mesmo em destruí-la, você me fez mesmo um grande favor! Estou te devendo esta,hein!
A vi recolhendo os restos mortais da sua odiosa criação.
-Isto não me serve mais para nada!
A segui, onde jogou a terra barrosa no jardim.
Saiu.
Fiquei ali, contemplando aquele montinho... e pensando que sim,
o jeito que aquela cabeça me tratara tivera mesmo sua razão de ser...
Arranquei uma flor ali perto e coloquei-a sobre o montinho.
- Desejo do fundo do meu coração que você vá para um lugar melhor, como a mente de um grande artista plástico ou os sonhos mais bizarros de um grande pintor e quem sabe um dia nos encontraremos de novo... e poderei te tratar melhor...
A hora estalou em meus olhos: a chamada!
- Adeus, cabeçinha...
Por um segundo jurei ver a florzinha se mexer como se a me dar um adeus...
mas pode ter sido ilusão de ótica da chuva ou do vento...
Porém gosto de pensar que sim, foi um último adeus seu para mim...

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